Diário de Bordo (Guaíra /PR) - Parte I
Que frio tem feito ultimamente. E que chuva mais chata. A impressão que dá é de que estamos virando sapos. Há dias que não vejo o sol. Na noite de quarta, não poderia ser diferente: chuva. As mochilas já estavam prontas, e aquele dia chuvoso por mais feio que fosse, para mim era lindo. Um dia especial, como os dias ensolarados nos bosques dos filmes da Disney. Quais os motivos da felicidade? Eu viajaria naquela noite. Adoro viajar. O simples ato de preparar a bagagem, colocá-la nas costas e embarcar pra qualquer lugar, me faz sonhar.
Mas não era uma viagem comum. Viajaria para um lugar desconhecido, a cidade de Guairá, oeste do Paraná – onde por força do destino e das necessidades mundanas do sustento, meu pai foi morar com meu irmão. Não vejo essa dupla desde o outro ano. Sinto muito à falta deles aqui comigo. Como se não bastasse, viajaria com minha melhor companhia, a única pessoa capaz de entender e acompanhar as minhas viagens, Desirée. Ela toda nervosa conheceria meu pai e irmão pessoalmente – já que o MSN encurta as barreiras impostas pela distância. Alem do fato de viajar pra rever meu pai e irmão, na companhia dos meus sonhos, viajaria no dia em que comemoro mais um mês de namoro. Sim, aquele era um dia lindo.
Chegamos bastante tempo antes do horário do embarque. Queria evitar atropelos e despedidas apressadas. Acabamos mofando na rodoviária até as 21 horas. Ficamos apreensivos quanto ao ônibus. Passaríamos cerca de 12 horas viajando até a cidade de Cascavel (onde pegaríamos outro ônibus), então queríamos um ônibus bom, com acentos confortáveis e em bom estado de conservação. E lá estava: Box 46 – POA / Cascavel – 21h. Nada mal. As mochilas grandes ficaram no bagageiro. Subimos apenas com duas mochilas pequenas com o essencial: dinheiro, documentos, óculos de grau e de sol e guloseimas, claro.
O ônibus era bacana, tinha acentos bons, era novinho, tinha tevês equipadas com dvd. Um filme agoniante começou tão logo o ônibus partiu da rodoviária. Não lembro o nome, mas era a história de um cara que foi conhecer os pais da namorada. Sugestivo hã?
Ficamos conversando até pegarmos no sono. Quando abri os olhos o ônibus andava devagar, anunciando que pararia em algum lugar. Recolhi a babinha furtiva no canto da boca, apertei os olhos e acordei minha parceira. O motor pára, o motorista abre a porta do salão de passageiros e anuncia: Carazinho, vinte minutos para a janta. Haviam se passado quatro horas e eu nem tinha percebido.
A rotina dos postos de parada é basicamente a mesma: suspiros, bocejos, o clect-clect das articulações dando sinal de vida, xixi, pastel, refrigerante, chiclet. Sempre fui apaixonado pelos postos de parada. Tenho vaga lembrança de um super legal na cidade de Itu em São Paulo. Mas hoje, pra ser sincero, nem sei se já estive lá, ou se é coisa da minha imaginação. Havia chocomilk com garrafinha de vidro, pastel, lápis e bugigangas gigantes. Mas isso quase todos os postos de parada na beira da estrada têm. Pode ser só uma nuvem na minha lembrança. Não sei explicar. Anos mais tarde me habituei de ver o posto do Japonês das idas ao Beto Carreiro World, depois nas idas à Ilha do Mel e posteriormente nas visitas à Maringá. Ou o sonho recheado do bar Italians na ida à Cruz Alta. Mas aquele caminho, não conhecia. E naquela rota, pelo visto não veria nenhuma das cidades que conheci pela janela do ônibus nos últimos 15 anos.
Hora de voltar para a estrada. Subi os degraus do ônibus seguindo a Desirée. Olhei ao redor: puxei-a pela blusa. Estávamos entrando no ônibus errado. Nosso ônibus era um parecido, que estava do outro lado da estação. Por pouco não vamos parar em um outro lugar qualquer, que não o nosso destino. Coisas passíveis de acontecer, á quem viaja de madrugada e se deixa levar pelo sono. Já no ônibus certo, nos aninhamos um no outro e dormimos nas sete horas restantes da viagem.
[Algum lugar, 15 de Setembro de 2005]
O sol aparecia tímido na janela do ônibus [o SOL, sim, ele ainda existia, mas pelo visto tinha esquecido as coordenadas do Rio grande do Sul], e me despertou perto das oito da manhã. Lembrei de uma antiga constatação em viagens de longa distância: o melhor soninho, é aquele nas manhãs nubladas entre seis e oito da manhã. Logo a De já estava acordada e via minha ansiedade. A previsão de chegada em Cascavel era 8h20. Mais vinte minutinhos e estaríamos mais perto. Perto de iniciar o estágio dois da viagem. Então percebi como era longe. A paisagem se repetia. Eram campos e mais campos amarelos de soja, às vezes aparecia uma terra vermelha nua, mas logo o “amarelo soja” tomava conta da cena. Amarelo, amarelo, estrada, árvores, mato e nada da cidade... 8h15 amarelo, mato, asfalto, árvores, carros, caminhões, 8h32 e nada de cidade. Meu coração estava na boca, nossa segunda passagem, de Cascavel á Guaíra estava marcada para 8h45. Comecei a imaginar que o vendedor de passagens de Porto Alegre havia se enganado nos vendendo passagens com horários errados, ou que havia acontecido algo com o ônibus durante a noite, ocasionando o atraso, ou o motorista havia descuidado de dobrar em alguma curva e estávamos perdidos, 8h49. Do nada surge uma rodoviária. Estico o pescoço pra todos os lados procurando nas placas dos estabelecimentos comerciais na margem da estrada algo que me dissesse onde eu estava. Cascavel, aqui estava. Mais que depressa pegamos nossas mochilas e corremos ao motorista assim que ônibus estacionou:
- Moço, moço, nosso ônibus... era as 8h45. Precisamos das bagagens pra embarcar no outro.
Com toda calma do mundo ele disse: - Calma o ônibus de vocês está atrasado. As estradas são ruins e ele sempre atrasa. Alem disso, temos uma norma de um sempre esperar o outro.
O que nos restava era esperar. Estávamos quase lá. Xixi, articulações “estralandas”, Rufles, fotos e as 9h20 nosso ônibus partiu rumo a Guaíra.
[Cascavel /PR - 15 de Novembro – Embarque Round 2 ]
Eram nove e vinte da manhã quando me joguei na poltrona confortável do ônibus na rodoviária de Cascavel para a segunda parte da viagem até Guaíra. Havia ligado de lá para meu pai, que a essa altura do campeonato já estava alerta nos esperando. A previsão era mais três horas.
O ônibus estava vazio, deixei a Desirée um banco e deitei no banco da fileira ao lado. Fiquei ouvindo um disco do Jack Johnson e reparando na paisagem. Volta e meia era sacudido pelos solavancos que o expresso Guaíra dava ao trafegar pelo asfalto banguela da estrada. Naquela hora tudo que eu mais queria era chegar.
Por volta de meio dia e quarenta o Unesul estaciona no destino final, finalmente Guaíra. Meu pai estava lá. É engraçada essa sensação; não o via há tempo. Gostei de ver a cara dele, e pensei rapidamente em como ele está envelhecido. Mas aquele gordão ali era o meu pai, meu velho amigo de sempre. E que saudades eu sentia! Quando cheguei perto para abraçá-lo, vi meu irmão, o Vini, saído de um corredor da rodoviária, roendo uma rapadura de leite. Abraços fortes e as devidas apresentações (eles não conheciam pessoalmente a Desirée), fomos de táxi direto para a casa do pai.
Quando morava em Porto Alegre, ele alugava um apartamentinho pequeno no IAPI. Vivia sozinho e recebia os filhos (eu e o Vini) no final de semana. Imaginei que em Guaíra seria igual. Acabei descobrindo que ele não poderia viver em um apartamento alugado por duas razões muito simples: a primeira, é que não havia apartamento vago no ÚNICO prédio residencial da cidade. A outra, é que lá ele vive com a namorada maringaense e o filho dela, além de um simpático gato filhote chamado Nêgo.
Era uma casa grande de 4 quartos, pátio na frente e atrás. Super legal, e eu esperando um apartamentinho. A cidade não pareceu ser muito movimentada à primeira vista. As primeiras impressões de um “Viajante” são importantes, é bom sentir uma cidade desconhecida.
Fazia frio, contrariando a previsão do canaldotempo.com que mostrava temperatura média de 30 graus. Fomos direto á um restaurante, matar quem estava nos matando. Lá José Augusto, mas conhecido como pai, começou a falar da história da cidade, do seu trabalho na Prefeitura Municipal, das atividades interessantes de se fazer por lá. Senti me super aconchegado, estava muito feliz de estar lá.
Depois do treino na escolinha de Futebol o Vini nos levaria para conhecer a cidade. E realmente, minha primeira impressão se confirmara, a cidade era realmente muito pacata, mesmo para uma tarde de quinta-feira. Deve ser estranho crescer numa cidadezinha no interior do Paraná. Meu irmão provavelmente será um moço sem raízes. Nascido em Porto Alegre, filho de pai gaúcho com mãe capixaba, mudou-se para o Paraná (Maringá), depois Guaíra. Muito provavelmente irá morar na Bélgica, daqui alguns anos, onde Julia, sua mãe mora atualmente. Que sotaque terá esse menino? Por hora ele já está falando “porrrrrta” como os paranaenses e falar com ele é uma delícia. Muito divertido! Que saudade sentia do meu pequeno. Ele nos levou nas Marinas, onde a prefeitura construiu um parque de eventos lindíssimo, que é usado uma vez por ano, apenas. Fomos até a margem do rio Paraná. Do outro lado fica o Paraguai. A cidade de Guaíra, faz fronteira com o Mato Grosso do Sul na cidade de Mundo Novo e com o Paraguai na cidade do Salto Del Guayra – passeio garantido para o sábado.
[Guaíra, 16 de Setembro de 2005]
A vida era mansa por lá. Nada de compromissos, nada de coisas chatas. Poderíamos dormir até tarde, almoçar, passear pela cidade, assistir filmes na tevê. Um espaço para não fazer nada. È muito bom, e infelizmente difícil, ter um espaço para o ócio hoje em dia.
No sábado logo pela manhã aparece no portão branco da casa o Lauro (colega de trabalho do pai na Prefeitura). Ele é um gordão engraçado de riso fácil e fala acelerada. Lauro seria nosso guia no “Salto” (Salto Del Guayra – Paraguai).
[Guaíra, 17 de Setembro de 2005]
Embarcamos no carro e fomos nós. Passamos pela ponte sobre o rio Paraná, que divide Guairá de Mundo Novo e pegamos umas ruas em péssimo estado de conservação rumo ao Salto. No caminho Lauro contava de como era o Rio antes das implosões das “Sete Quedas” para a construção das barragens de Itaipu. Segundo ele, e muitos com quem conversamos, um crime para o desenvolvimento econômico da região.
Notamos a troca de país quando as placas eram escritas em espanhol. Nada de burocracia, carimbo em passaportes ou qualquer coisa do tipo. Pela janela do carro via as pessoas daquele lugar. A moda, os rostos, a economia, o comportamento, tudo era diferente. O abismo era grande, apesar de não ter nada marcando (fisicamente) a separação dos países. Para nós, que viemos com espírito quase antropológico, tanto melhor as diferenças. Nos restava mergulhar na novidade que nos enchia os olhos, sem esquecer de aproveitar as pechinchas, é claro.
O Salto é uma cidadezinha muito pequena, lembrei da estrutura básica da minha cidade, Cachoeirinha/RS. Uma avenida grande dividida por um canteiro central, com comercio ao longo da via. Olhamos tudo, anotamos as coisas que nos interessavam e torramos algumas economias no final do dia. Eu comprei minha super-desejada câmera digital, a Dê comprou algumas coisas pra ela também.
Andando distraidamente pela rua, de mão dada com a Desirée, ouço alguém chamar por nós. Na verdade não era exatamente a nós (Tiago e Desirée), mas sim os trouxas turistas brasileños que vem quemar plana no Paragua. Ingenuamente paramos. Era um casal riponga (idênticos a todos os casais ripongas que você provavelmente já tenha topado por aí). Com um papo amigável o Barbudo nos ofereceu suas bugigangas, fez-nos pegar, tocar, enquanto sua companheira empurrava miçangas em um arame com um alicate logo adiante, escorada no muro. Perguntou de onde éramos. A palavra mágica fez o hippie se alegrar. “Bracil, Bracil ô que lugar, que lugar” – notadamente puxando o saco dos visitantes. Quando dissemos não estar interessados na produção deles, o papo foi ficando mais áspero “ nosotro estamos trabajando, no estamos robando a nadie. Solo queremos plata para tomar un “nho-nho” “. Putz era o mesmo papo do pessoal que pede dinheiro nos ônibus... não to roubando, não to matando, só estou pedindo uma pequena ajuda para os senhores passageiros – obrigado ao senhor cobrador e ao senhor motorista etenhamtodosumaboaviagemequeDeuslhesacomapanheelhesdêemdobro” Ufa!
“Não temos dinheiro, não estamos comprando nada” – foi a desculpa educada que deu.
“Brasileño fudido! Vem fazer o que no Paraguai sem Dinheiro!?” (Já em português bem razoável até). E o Barbudo ficou lá, a nos xingar e a gesticular por não termos dado dinheiro para o “nho-nho” (cerveja de 1 litro, muito popular por lá). Moral da história: Hippie é hippie em qualquer lugar no que diz respeito a características gerais de aparência, cheiro, produção manual, comportamento. A diferença é que os de fronteira são hippies bilíngües (!)
continua...

